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Este trecho em que Moshé Rabenu se dirige a HaShem é muito breve no texto, mas na realidade abre uma profundidade imensa, especialmente quando é lido com a sensibilidade da emuná e a perspectiva de Rabi Nachman.
Moshé sabe que está prestes a deixar este mundo. No entanto, em vez de falar de si mesmo, de seus méritos ou de seu lugar, ele se volta imediatamente para o futuro do povo. Ele diz a HaShem, em essência: “Tu és o D’us dos espíritos de toda carne, Tu conheces cada alma em sua singularidade… por isso dá ao povo um líder.”
A expressão é muito importante: “D’us dos espíritos de toda carne”. Isso significa que HaShem não vê os seres humanos como um bloco uniforme. Cada pessoa tem uma estrutura interior distinta, uma sensibilidade diferente, uma maneira diferente de compreender e de viver as coisas. Portanto, se o povo deve ser guiado, precisa de um condutor capaz de sustentar essa diversidade sem quebrá-la.
Moshé descreve então a situação com uma imagem muito simples, mas muito poderosa: um rebanho sem pastor. Um rebanho sem pastor não está simplesmente “desorganizado”. Ele está exposto, disperso, vulnerável, incapaz de se proteger ou de se reunir. Moshé entende que a maior fragilidade de um povo não é externa, mas interna: é a ausência de direção.
Ao mesmo tempo, aqui há uma emuná muito profunda. Moshé não pensa que tudo depende unicamente do homem. Seu pedido é dirigido a HaShem. Isso significa que ele reconhece que o verdadeiro condutor da história não é um líder humano, mas o próprio HaShem. O líder é apenas um intermediário, um canal. E mesmo quando Moshé desaparece, o povo não desaparece com ele, porque a guia sempre provém de HaShem.
É aqui que o ensinamento de Rabi Nachman acrescenta uma camada adicional de profundidade. Para Rabi Nachman, a noção de “pastor” não se limita a uma figura política ou mesmo histórica. O pastor representa a conexão viva entre a alma e HaShem.
Na vida interior da pessoa, há momentos em que tudo se confunde: os pensamentos se contradizem, as emoções tomam o controle, a clareza desaparece. Nesses momentos, a pessoa pode sentir de verdade o que significa estar “sem pastor”, ou seja, sem uma direção interior estável.
Por isso o tzadik, na visão de Rabi Nachman, desempenha um papel essencial: ele traz clareza (daat), lembra à pessoa onde está HaShem, mesmo quando ela já não O sente. Ele não substitui HaShem, mas ajuda a reconectar a pessoa com HaShem. Age como uma luz na neblina.
E, no entanto, Rabi Nachman sublinha algo ainda mais profundo: mesmo quando o tzadik não é visível, mesmo quando a guia parece ausente, isso nunca significa que HaShem tenha abandonado o mundo. A sensação de ser um “rebanho sem pastor” é muitas vezes uma percepção humana, não uma realidade divina. Na verdade, HaShem continua guiando cada detalhe, cada caminho, cada desvio.
Assim, a oração de Moshé pode ser compreendida em dois níveis ao mesmo tempo. No nível externo, ele está pedindo um líder concreto, alguém que possa carregar o povo, guiá-lo, protegê-lo e manter sua unidade. Sem isso, o povo corre o risco de se dispersar na confusão.
No nível interno, tal como o revela Rabi Nachman, ele também está expressando uma verdade espiritual permanente: o ser humano precisa de uma conexão viva com HaShem para não se perder em seu mundo interior. E essa conexão pode passar por meio de um tzadik, de uma palavra de verdade ou até mesmo de um pequeno ponto de clareza que desperta no coração.
Por isso, o pedido de Moshé é também uma forma de emuná pura. Ele não está dizendo: “tudo depende do líder”. Ele está dizendo: “dá-nos um líder, porque sem Tua guia não podemos avançar”. É o reconhecimento de que até o maior dos líderes não é mais que um instrumento nas mãos de HaShem.
E isso traz um grande consolo. Porque na vida há momentos em que a pessoa perde seus referenciais, quando as figuras de guia desaparecem ou já não estão acessíveis. Mas este trecho nos lembra que nunca há um abandono verdadeiro. Mesmo na escuridão, a guia continua. Às vezes visível, às vezes oculta, mas sempre presente.
E, no fim, talvez esta seja a mensagem mais forte de todas: mesmo quando a pessoa se sente como um rebanho sem pastor, nunca está sem HaShem.
Do “Manual de Pensamento Judaico”, do Rabino Aryeh Kaplan. Publicado em Aish.com
Por Aryeh Kaplan
O objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.
Ouça este artigo:
A fé em D’us é o fundamento do judaísmo... A fé não é apenas a expressão de palavras, mas uma crença e convicção firmes na mente e no coração. É também um compromisso que se manifesta em ações, com uma adesão sincera ao caminho prescrito por D’us. É por isso que a mera crença sem obediência a Ele é um absurdo...
Nossa fé começa com as tradições que nos foram transmitidas por nossos ancestrais e em nossa literatura sagrada. Através delas, conhecemos a D’us, Suas obras e Seus ensinamentos. A Torá nos diz: "Pergunte a seu pai, e ele lhe dirá; pergunte a seu avô, e ele lhe informará" (Devarim 32:7). Ela também declara [no Shemá]: "Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso D’us, o Senhor é Um" (Devarim 6:4), o que implica que devemos aceitar essas verdades com base no que ouvimos e compreendemos.
Há quem defenda que este é apenas um primeiro passo, enquanto o nível mais elevado de fé provém da comprovação filosófica dessas verdades. Segundo essa opinião, quem tem capacidade para tal deve tentar provar os fundamentos da nossa fé. Isso é sugerido em passagens como "Saibam que D’us é o Senhor; Ele nos fez e somos Dele" (Tehilim 100:3), que indicam que o objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.
Há outros, porém, que sustentam que a fé mais elevada é aquela derivada unicamente da tradição, caso em que a comprovação metafísica só deve ser usada como último recurso para evitar a descrença. De acordo com essa opinião, uma fé bem fundamentada e um profundo conhecimento de D’us podem ser obtidos somente pela tradição.
Em última análise, devemos nos esforçar para aprender os fundamentos da nossa fé e adquirir uma compreensão profunda deles, visto que a crença baseada em mero hábito e tradição cega é uma fé frágil, que pode ser atacada por dúvidas e refutada por argumentos.
Uma fé forte, portanto, baseia-se tanto na razão quanto na tradição, como ensinou o profeta: "Acaso não sabeis? Acaso não ouvistes? Não vos foi dito desde o princípio? Acaso não compreendeis como foi fundada a terra?" (Yeshayáhu 40:21). De maneira semelhante, somos ensinados: "Conhecei o D’us de vosso pai" (1 Crônicas 29:9). Em cada caso, somos instruídos a conhecer e compreender racionalmente aquilo que nos foi ensinado e recebido pela tradição.
Se alguém tem a capacidade, deve usar seu conhecimento para acrescentar ao que foi derivado da tradição. Assim, lemos: "Este é o meu D’us, e eu o glorificarei; o D’us de meu pai, e eu O exaltarei" (Shemot 15:2), o que indica que Ele é o meu D’us segundo o meu próprio entendimento, ao mesmo tempo que é o D’us de meu pai segundo a tradição. De forma similar, oramos: "Nosso D’us e D’us de nossos pais", e os judeus são chamados de "crentes, filhos de crentes".
Perguntas e Dúvidas
Se alguém tiver condições, deve aprender o suficiente em ciência para reconhecer o mundo como uma obra Divina e compreender Sua grandeza, conforme declara o profeta: "Levantai os vossos olhos para as estrelas e vede quem as criou" (Yeshayáhu 40:26). Se alguém for estudioso, deve fazer isso quando não puder se dedicar a estudos religiosos.
Ao mesmo tempo, deve-se evitar especulações metafísicas inúteis, bem como o estudo da filosofia em geral, pois tendem a minar a fé. Se alguém se encontrar em uma posição em que precise se dedicar a tais estudos, pode fazê-lo, mas com a máxima cautela.
O caminho para a verdadeira fé passa pela observância e pelo estudo dos nossos ensinamentos religiosos. Mesmo que alguém sinta que sua fé está fraca, deve continuar suas observâncias e estudos, e eles o trarão de volta a Sua fonte. Somos ensinados que D’us disse: "Se eles Me tivessem abandonado, mas guardado a Minha Torá, a luz inerente dela os teria trazido de volta a Mim".
Por outro lado, se alguém não estudar nossos ensinamentos religiosos, poderá se ver deixando de observar os mandamentos. Isso o levará a desprezar aqueles que os observam e até mesmo a odiar nossos mestres. Ele poderá então tentar impedir que outros observem, pois terá encontrado uma maneira de negar a própria origem Divina. A Torá adverte sobre esse tipo de progressão quando diz: "[Mas isto é o que acontecerá] se vocês não Me ouvirem e não guardarem todos estes mandamentos: vocês passarão a denegrir Meus decretos e se cansarão das Minhas leis. Vocês não guardarão todos os Meus mandamentos e acabarão por anular a Minha aliança" (Vayicrá 26:15).
Se alguém se depara com perguntas e dúvidas a respeito dos fundamentos de nossa religião, deve ter fé de que essas perguntas podem ser respondidas. Nada pode resistir à fé absoluta, como nos ensinou o profeta: "O justo viverá pela sua fé" (Habakuk 2:4).
Se alguém sente que sua fé está vacilando, deve ponderar cuidadosamente a possível perda que a descrença acarretará em relação a qualquer benefício que ela possa trazer. Deveria confiar nas próprias convicções e não duvidar de seus próprios motivos.
Nível Mais Elevado de Fé
Alguns descrentes tentam explicar nossa crença psicologicamente. No entanto, o mesmo argumento pode ser usado em relação à descrença deles. Além disso, há considerável evidência objetiva da veracidade de nossa religião.
Há muitos ensinamentos em nossa religião que são conhecidos apenas pela tradição e não podem ser comprovados de forma alguma. Há um limite além do qual a prova racional falha e se desfaz, e é aí que devemos nos apoiar na fé e na tradição.
“A Torá não nos obriga a acreditar em absurdos.”
Contudo, a Torá não nos obriga a acreditar em absurdos, e devemos examinar cuidadosamente as fontes de crenças comuns absurdas para determinar se elas realmente têm fundamento na tradição. A respeito disso, está escrito: "O insensato crê em tudo, mas o prudente segue o caminho reto" (Mishlê 14:15).
Portanto, devemos estudar cuidadosamente e confiar nas palavras e nos escritos de nossos profetas e sábios. A crença em nossos grandes líderes, que são os pastores de nossa fé, equivale à crença no próprio D’us. Assim, somos ensinados que "crer no fiel pastor é como crer naquele que falou e trouxe o universo à existência". Da mesma forma, está escrito: "Creiam em D’us e vocês serão firmados; creiam nos Seus profetas e vocês prosperarão" (2 Crônicas 20:20).
O nível mais elevado de fé, alcançado apenas por indivíduos como nossos profetas e homens santos, é a transcendência de sua própria natureza física até que eles realmente experimentem o Divino e possam dizer: "Este é o meu D’us" (Shemot 15:2). Uma vez que uma pessoa tenha experimentado isso, não poderá haver dúvidas em sua mente, pois ela ultrapassou a mera fé e crença e alcançou o conhecimento inequívoco do Criador. Para quem nunca experimentou isso, é tão inimaginável quanto a cor é para um cego.
Respondendo ao Não-Crente
A fé em D’us e em nossos fundamentos religiosos é nossa posse mais preciosa e deve ser guardada como tal. A Torá reconhece o ateu e o chama de tolo, como está escrito: "Diz o insensato no seu coração: Não há D’us" (Tehilim 14:1).
Portanto, somos instruídos a não deixar que pensamentos ateístas ou desejos materiais minem nossa fé, como declara a Torá: "Não te desvies segundo o teu coração, nem segundo os teus olhos" (Bamidbar 15:39).cs
Este é um mandamento negativo, que depende do pensamento, e pode ser observado a qualquer momento, afirmando a própria vontade e recusando-se a ser desviado da nossa fé...
Deve-se estar suficientemente familiarizado com os fundamentos da nossa religião e seus argumentos racionais para saber como responder ao descrente. No entanto... deve-se, portanto, participar de um debate religioso apenas quando este for iniciado pelo descrente e houver o perigo de que ele possa influenciar outros, e mesmo nesse caso, não se deve debater a menos que se esteja completamente familiarizado com a questão e seja hábil em debater. Se alguém tem confiança de que pode prevalecer, pode debater, como nos é ensinado: "Responda ao tolo segundo a sua tolice, para que ele não se julgue sábio aos seus próprios olhos" (Mishlê 26:5).
Confiar em Milagres
Fé e confiança em D’us são parceiras, visto que aquele que crê em um D’us onisciente, onipotente e benevolente também deve crer que Ele proverá para os Seus fiéis. Portanto, deve-se confiar em D’us e não se preocupar excessivamente com o futuro. Assim está escrito: “Entregue o seu caminho a D’us. Confie nele, e ele agirá” (Tehilim 37:5) e “Bem-aventurado o homem que confia em D’us; D’us será o seu refúgio” (Yirmiyáhu 17:7).
Portanto, não se deve buscar prever o futuro por meio de adivinhação, astrologia ou outras superstições. A respeito disso, a Torá nos ordena: “Seja fiel a D’us, seu Senhor” (Devarim 18:13), o que algumas autoridades consideram um mandamento positivo.
Confiar em D’us não significa negligenciar planos para o futuro, nem significa ficar de braços cruzados esperando que Ele o alimente milagrosamente ou que negligencie a própria saúde, esperando que D’us o mantenha saudável. Sobre isso, está escrito: “A insensatez do homem perverte o seu caminho; no seu coração, ele acaba culpando a D’us” (Mishlê 19:3).
Certamente, ninguém deve se colocar em perigo e depois confiar em um milagre para salvá-lo. Mesmo em situações onde milagres eram prováveis, nossos sábios não dependiam deles e até se recusavam a se beneficiar deles.
Não devemos testar a D’us exigindo recompensa imediata por nossas boas ações. Se alguém está praticando uma boa ação, pode confiar em D’us e ignorar um possível perigo. Ainda assim, se o perigo for provável, é necessário que esteja atento.
Somos ordenados a não testar a D’us pedindo um milagre ou exigindo uma recompensa imediata por nossas boas ações, como está escrito: "Não ponha à prova o Senhor teu D’us" (Devarim 6:16). A única exceção a isso é o mandamento da tsedacá, caridade, sobre o qual D’us diz: "Trazei todos os dízimos... e com isso ponham-me à prova, diz o D’us dos Exércitos, para ver se eu abro as janelas do céu e derramo sobre vós uma bênção abundante" (Mal’Achi 3:10).
Alguns defendem que se pode pedir a D’us um sinal para ajudar a tomar uma decisão difícil, caso não haja outros meios lógicos disponíveis, mas isso só deve ser usado como último recurso...
Muito grande é a recompensa da fé. Assim, vemos que nossos ancestrais foram redimidos do Egito por causa de sua fé e confiança em D’us.
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo.
Rabino Lazer Brody
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo. E que, na minha opinião, é pior até do que um ato terrorista.
A Lei Judaica estabelece que Yom Kipur não expia os pecados entre o indivíduo e o seu próximo. Em outras palavras: não podemos pedir a HaShem que nos perdoe por ter causado dor a outra pessoa até que primeiro peçamos perdão a essa pessoa.
Pedir perdão a outra pessoa é muito mais complexo do que pedir perdão a HaShem. Justamente em relação a esse tema quero compartilhar com vocês uma história verídica que me trouxe lágrimas aos olhos quando me foi contada pelo Rabino Shalom Arush.
Em Israel, no mundo das escolas para meninas e adolescentes, está muito difundido o conceito de “malkat ha‑kitá”, a rainha da classe. Muitas vezes, a rainha da classe é uma aluna loira e de olhos azuis, filha de alguém abastado ou de alguém com muita influência na comunidade, e que adora se divertir às custas dos outros. Rina, de dezessete anos, estudava em Bnei Brak, Israel, no colégio secundário, e era a “Rainha da Classe”.
Certa vez, uma de suas colegas, Rebeca, que não era nem tão bonita nem tão popular, que além disso tinha o cabelo crespo e era filha de um taxista, chegou à classe com o cabelo cortado em forma de cogumelo. A “Rainha”, que vivia rondando em busca de alguma boa piada às custas dos outros, ao vê‑la, exclamou bem alto: “Alguém sentiu que chovia dentro da sala? Estão crescendo cogumelos na sala!”. E então todas as alunas explodiram em uma estrondosa gargalhada.
Rebeca sentiu o rosto ficar da cor de tomate e depois branco, como se alguém lhe tivesse feito um corte na garganta. A pobre garota sentiu‑se terrivelmente humilhada, a ponto de quase desmaiar. Exatamente naquele momento soou o sinal e a professora pediu que todas as alunas se sentassem em seus respectivos lugares. Nossa vítima sentou‑se numa poça de lágrimas, que bem poderia ter sido uma poça do seu próprio sangue.
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo. E que, na minha opinião, é pior até do que um ato terrorista.
Não só Rebeca não conseguiu prestar atenção ao que dizia a professora, como perdeu toda a sua autoestima e a confiança em si mesma. A dor e o sentimento de vingança eram como ácido que lhe corroía o coração. Nada ia bem para ela. Naquele mesmo ano toda aquela turma se formou no colégio secundário e ela não conseguiu encontrar trabalho. Uma por uma, suas colegas foram se comprometendo e nossa vítima nem sequer recebia propostas de casamento. Não tinha sucesso em nada do que fazia. E assim foi como a pobre Rebeca se transformou numa jovem triste, amarga, nervosa e vingativa.
Decorreram dez anos e agora Rebeca era uma flor murcha de vinte e sete anos que ainda morava na casa com sua mãe.
Enquanto isso, a rainha da classe recebeu uma prestigiosa proposta de casamento com uma rica família de Boro Park, EUA. Depois de seu casamento em Israel, Rina mudou‑se para a América do Norte com seu novo marido. Ela tinha uma fortuna e morava numa mansão, mas dez anos mais tarde ainda lhe faltava a principal alegria da vida: os filhos. Todas as suas amigas já iam no quarto ou quinto filho, mas ela continuava sem conseguir ser mãe.
No bairro de Rina morava Sari, outra ex‑colega de classe. Sari também se casara com um rapaz de Boro Park e também tinha ido morar nos EUA. De fato, os maridos de ambas estudavam juntos. A rainha da classe costumava suplicar à sua ex‑colega que fosse visitá‑la, tomar chá e conversar em sua casa, mas Sari sempre tinha uma boa desculpa: agora ela tinha dois filhos ao lado, outros dois no carrinho de gêmeos e um quinto a caminho. No entanto, a rainha da classe a encurralou e literalmente a forçou – a ela e a seus filhos – a irem tomar chá com ela. Uma vez em sua casa, Rina perguntou a Sari: “Por que você me evita o tempo todo? Por que dá a impressão de que todos evitam minha presença? Tenho uma vida cheia de tristeza e nem sequer entendo por quê”.
Sari enrubesceu e não quis dizer nada, mas Rina, a ex‑rainha da classe, insistiu tanto que finalmente Sari disparou: “Está bem, Rina, se você realmente quer saber a verdade, tenho que confessar que jamais em toda a minha vida esquecerei sua crueldade. Não sei com quem compará‑la… talvez com um assassino? Com um nazista? Acaso não sabe que você destruiu a vida da Rebeca?”. Sari mantinha contato regular com Rebeca e de vez em quando telefonava para ela.
A rainha da classe pediu a Sari o número de telefone de Rebeca, porque sabia que a jovem mãe estava dizendo a absoluta verdade. Foi assim que decidiu ligar para a vítima e pedir perdão.
Ao ouvir a voz de Rina, Rebeca gritou descontroladamente: “A que você se refere? Você me envergonhou em público, causou‑me uma dor e uma pena indescritíveis, e agora quer apagar dez anos de sofrimento e solidão com uma ligação telefônica porque você é a rainha da classe? De jeito nenhum! Não quero ver você nem ouvir nada de você pelo resto da minha vida! Acaso não lhe basta ter me perseguido todos esses anos como um fantasma, sem permitir que eu vivesse uma vida normal, feliz e plena?”. Então a vítima desligou o telefone.
Uma semana mais tarde, alguém bateu à porta da casa da vítima. Rina, com os olhos vermelhos de tanto chorar, suplicou à mãe de Rebeca que a deixasse entrar em seu modesto apartamento de dois cômodos em Bnei Brak. A princípio, Rebeca recusou‑se a falar com Rina. Mas sua mãe a convenceu e então Rebeca foi até a porta. A mulher estéril, com os olhos cheios de lágrimas e vestida com recato, não era a Rina arrogante e esnobe que ela lembrava. Instantaneamente, cada uma sentiu a dor da outra e caíram nos braços uma da outra, abraçando‑se e chorando. Os corpos de ambas se sacudiam com o choro, numa catarse de anos inteiros de frustração, lamento e emoções contidas. Cada uma contou à outra a história de sua vida durante os últimos dez anos. Finalmente, disseram uma à outra: “perdão”.
Muito em breve a rainha da classe engravidou e a vítima se comprometeu com seu futuro marido.
Mais tarde, a vítima se deu conta de que havia sofrido uma dupla tortura: primeiro, pela humilhação, mas também, e ainda pior, pelos dez anos de ódio ardente e sentimento de vingança, que lhe corroía as paredes da alma como um ácido.
Mas surge aqui uma pergunta: nesta história, vemos que a vítima também foi castigada. Por quê? O que foi que ela fez de errado?
O Rabino Shalom me explicou da seguinte forma:
Se alguém sofre por sua culpa, então você também sofre. É por isso que todas as noites, antes de irmos dormir, dizemos no Kriat Shemá: “que ninguém seja castigado por minha causa”.
Temos que ter muito cuidado para não causar dor a nenhum ser humano na terra. Mas, se alguém nos causa dano, devemos aceitá‑lo com Emuná – por mais doloroso que seja – e saber que tudo o que HaShem faz é justiça perfeita. Joguemos a culpa do nosso sofrimento nas transgressões que cometemos e que não retificamos.
Quando perdoamos os outros, HaShem nos perdoa por nossas faltas, medida por medida. Mas, quando a pessoa exige justiça, então HaShem examina a pessoa que exige justiça e abre o registro dessa pessoa.
Em Yom Kipur queremos expiar nossos pecados. Não queremos que abram novamente nosso “histórico”. Por isso, perdoemos todos os que nos causaram dor ou pena. E, com a ajuda de Deus, todos seremos inscritos no Livro da Longa Vida para um maravilhoso Ano Novo. Amém!
Fonte: traduzido do Espanhol - Redação Breslev Israel
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao incômodo, ele continuou, nada o deteria...
Rabino Lazer Brody
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao incômodo, ele continuou, nada o deteria…
“E o povo ficou de longe, e Moisés aproximou-se da densa nuvem na qual se encontrava Di–s” (Êxodo 20:18).
Depois de ver e ouvir a glória de HaShem, o Criador do Universo, na primeira festividade de Shavuot, quando o povo de Israel recebeu a Torá, a Lei Divina, eles tremeram de medo. O Midrash nos conta que os anjos tiveram que fazer as almas voltarem aos corpos dos israelitas; de outra forma, o povo não teria conseguido manter sua existência física na presença de tamanha santidade.
A Torá é o “Projeto da Vida”. Portanto, a descrição do versículo acima sobre Shavuot e a recepção da Torá carrega duas mensagens intrínsecas particulares que ensinam uma importante lição sobre o serviço ao Criador. O Rebe Nachman de Breslev escreve (Likutey Moharan I, 116):
“As forças espirituais do Juízo Severo denunciam aquele que – em virtude de seus próprios atos – não é digno de alcançar a proximidade do Criador, e se recusam a permitir que ele se una a um Verdadeiro Tzadik (Justo) e ao Caminho da Verdade. HaShem ama a justiça; portanto, Ele deve, aparentemente, consentir em impedir essa pessoa de alcançar o caminho da vida, à luz das más ações dessa pessoa segundo a justiça, já que Ele ama a justiça.
Mas, na verdade, HaShem, bendito seja, ama Israel, e Seu amor por Israel é maior que Seu amor pela justiça. Então, o que Ele faz? Aparentemente, Ele deve concordar com as demandas da justiça de rejeitar uma pessoa que deseja alcançar a verdade, já que essa pessoa provocou o Juízo Severo. Porém, na realidade, apesar de seu passado, HaShem deseja que ela se aproxime d’Ele, pois Ele ama Israel mais do que a justiça que a condena. Por isso, HaShem consente em permitir que essa pessoa seja afligida por obstáculos, e Ele mesmo Se oculta dentro deles. Qualquer pessoa que possua Consciência Espiritual pode encontrar o Criador, que Se esconde justamente dentro dos próprios obstáculos.
Na verdade – não existem obstáculos de fato, pois a pessoa pode se aproximar de HaShem por meio deles, já que Ele Se oculta dentro deles!”
À luz dos ensinamentos assombrosos de Rabi Nachman, podemos interpretar corretamente as alusões do versículo:
“E o povo ficou de longe” – à luz de suas ações passadas como escravos no Egito, tendo aprendido muitas más influências dos egípcios, o povo – segundo o Juízo Divino – não merecia ser recompensado com a proximidade de HaShem. Hoje, esse mesmo versículo alude à pessoa que deseja retornar ao Criador, mas cujos atos passados provavelmente invocaram muitos Juízos Severos. Essa pessoa se sente afastada, obrigada a ficar “de longe”; muitos obstáculos dificultam seu processo de Teshuvá – arrependimento e retorno a HaShem – desencorajando-a. Na realidade, HaShem Se esconde dentro desses obstáculos, esperando que a pessoa seja suficientemente corajosa para superá-los. HaShem está próximo o tempo todo!
“Moisés aproximou-se da densa nuvem na qual se encontrava Di–s” – “Moisés” alude à pessoa que quer se aproximar de HaShem a qualquer custo; ele ou ela não teme aproximar-se das “densas nuvens” – os obstáculos – onde HaShem realmente se encontra!
Tentaremos esclarecer a alusão da Torá e o elevado princípio de Rabi Nachman com a seguinte parábola:
Um grande urso marrom estava com fome. Olhava por toda parte procurando alimento; encontrou alguns cardos e alguns tubérculos, mas desejava algo mais – mel! O mel era sua comida favorita, e ele percorreu bosques e prados à procura dele.
Entre os majestosos carvalhos brancos, o urso encontrou apenas bolotas. “Eu não sou um esquilo”, queixou-se consigo mesmo. “Preciso de algo doce – preciso de mel! Deem-me mel!” Entre as coníferas, encontrou algumas pinhas, mas tinham um gosto de aguarrás. Ao longe, seu nariz sensível sentiu um perfume delicioso – o aroma perfumado da flor silvestre da qual se extrai o mel!
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao pequeno incômodo, ele continuou, nada o deteria. Outra abelha pousou em seu nariz, e uma terceira teve a audácia de picá-lo no lugar mais sensível de seu corpo. Não demorou muito e o urso estava envolvido por uma nuvem de abelhas furiosas.
Quanto mais abelhas chegavam, mais feliz ficava o urso, pois sabia que as colmeias e os favos de mel estavam perto dele. Por causa de seu objetivo, suportou o aumento das picadas, continuando na direção da fragrância embriagadora do mel, que ficava mais forte a cada momento. Sem perder de vista seu objetivo, conseguiu enxergar: ali, na árvore à beira do prado, estava o favo de mel que tanto desejava!
Um urso faminto, com a boca cheia de mel, não presta a mínima atenção a nenhum obstáculo, nem mesmo a centenas de picadas de abelha!
Engraçado, mas até um urso sabe que, quanto mais abelhas encontra, mais perto está do mel. Em outras palavras, quanto maiores são os obstáculos ou a resistência espiritual, mais perto a pessoa está de HaShem e de Sua Torá.
Em Shavuot, quando HaShem deu Sua Torá ao Seu povo de Israel, temos a oportunidade anual de fortalecer nosso compromisso com HaShem e Sua Torá. Durante a noite de Shavuot, as forças do Juízo Severo reclamam que não merecemos a Torá. O que faz então HaShem? Ele aparentemente cede às demandas da Justiça e nos faz sentir sonolentos para nos impedir de estudar Torá.
Se você quisesse jogar cartas, bêbado de gim, durante a noite de Shavuot, não sentiria sono algum. Mas, assim que abre um livro de Guemará ou outro livro sagrado de Torá, suas pálpebras ficam pesadas. Assim como as abelhas estão próximas do mel, o obstáculo ou a fadiga estão próximos da Torá; vencendo nossa sonolência (que é, na verdade, o Criador escondido nela), temos a possibilidade única de desfrutar da iluminação do nosso compromisso renovado com a Torá. Nosso amor pela Torá – o mel de nossas almas – nos dá o poder de permanecer acordados toda a noite de Shavuot e nos dedicar novamente ao estudo da Torá, a Lei Divina.
Que todo o povo de Israel consiga vencer qualquer obstáculo que dificulte seu retorno a HaShem e à Sua Torá, ainda neste ano, amém!
Um dos mandamentos mais importantes da Torá é ajudar uma pessoa necessitada. Qual é a melhor maneira de cumprir essa mitzvá tão importante?
Rabi Nachman de Breslev ensina que, se uma pessoa depende dos outros de qualquer forma que seja, ela se torna um “necessitado”. Não importa do que ela precise, mas se não consegue resolver as coisas por si mesma, então essa pessoa fica vulnerável às mentiras. Tanto se alguém precisa de ajuda para obter renda quanto se precisa que alguém lhe faça um elogio para se sentir bem, essa pessoa perde sua independência na medida em que depende dos outros. Aqueles que dependem de outras pessoas de alguma maneira são propensos a se desviar da verdade para impressionar aqueles de quem dependem. Rabi Nachman explica que esse fenômeno de se desviar da verdade afeta a forma como a pessoa reza; às vezes, ela faz todo tipo de gesto para impressionar os outros e mostrar o quanto é correta e fervorosa.
É provável que essa pessoa busque prestígio ou ajuda financeira, mas como seus gestos são destinados aos demais congregantes e não a Hashem, estão longe da verdade — e ela também (veja Likutei Moharán I:66).
A independência, tanto econômica quanto emocional, é o maior sentimento que existe. Mais ainda: esse sentimento permite à pessoa encontrar a verdade. Ela não precisa bajular nem impressionar as pessoas, porque não recorre a seres de carne e osso para obter favores. Não necessita de elogios nem de esmolas. Se quer algo, ou mesmo se precisa de encorajamento, recorre a Hashem. A pessoa de emuná pode se sustentar por si mesma.
Desde que nos voltamos a Hashem, alcançamos uma maravilhosa sensação de independência, porque não estamos tentando agradar às outras pessoas o tempo todo. Podemos perseguir a verdade, aonde quer que ela nos leve.
Uma coisa é a independência e outra bem diferente é a crueldade. Cada um de nós deve se esforçar para ser independente, mas quando vemos que outra pessoa precisa de ajuda, devemos cumprir prontamente nossa obrigação para com Hashem e Sua Torá e fazer o que pudermos para ajudá-la. Além disso, se a pessoa necessitada é um justo convertido, uma viúva ou um órfão, ajudá-la implica uma mitzvá adicional.
A parábola clássica de Rashi fala de um homem com um jumento que carrega uma enorme carga nas costas. A carga começa a se desequilibrar; nesse ponto, uma única pessoa é suficiente para endireitar a carga. Mas, se a carga cai no chão, nem mesmo quatro pessoas conseguirão levantá-la.
Muitas vezes, se estendermos a mão a um indivíduo que está cambaleando, poderemos evitar que quatro mãos de ajuda sejam necessárias se ele cair por completo, que o Céu não o permita.
Segundo a Lei judaica, há oito níveis de caridade, cada um superior ao outro. O nível mais elevado é “fortalecer a mão de uma pessoa que está caindo… encontrando-lhe um trabalho para que não dependa de outras pessoas, pois é isso que está dito: ‘e tu o fortalecerás’” (Shulchan Aruch, Yore Dea 249:6).
Esta é a forma mais elevada de caridade, pois ao conseguir um emprego para uma pessoa ou ensinando-lhe um ofício ou habilidade que lhe permita sustentar-se, o benfeitor possibilita ao necessitado manter-se por si mesmo.
Graças à sua independência emocional e econômica, ele se poupa da humilhação de estender a mão aos outros ou de pedir favores a pessoas de carne e osso.
De fato, ao ser independente, a pessoa antes necessitada alcançará um status tal que lhe permitirá, por sua vez, ajudar os demais.
Fortalecer outra pessoa emocional e espiritualmente é uma mitzvá tão importante quanto fortalecê-la economicamente.
Quando alguém ensina a outra pessoa a falar com Hashem todos os dias e a recorrer a Ele — que não há necessidade (nem adianta) correr atrás dos outros para conseguir o que busca — está ajudando-a a ser independente, pois ela já não dependerá dos demais, nem economicamente nem emocionalmente.
Ensinar o outro a se sustentar por si mesmo e a falar com Hashem diariamente não é menos importante do que arrumar-lhe um trabalho ou ensinar-lhe um ofício, porque, ao falar com Hashem todos os dias, verá com seus próprios olhos como se torna independente dos demais mortais em todos os aspectos da sua vida.
Agora está livre para encontrar a verdade, pois não precisa adular nem impressionar ninguém.
Há anúncios políticos… e há momentos que vão além da política. O anúncio de um “Shabat nacional” nos Estados Unidos não pode ser visto como uma simples decisão simbólica. Toca algo muito mais profundo, quase atemporal. Como se, em meio ao tumulto do mundo moderno, uma verdade antiga voltasse à superfície.
Há milênios, o povo judeu carrega um tesouro único: o Shabat. Um dia em que o ser humano deixa de correr. Um dia em que ele reconhece que nem tudo depende dele. Um dia em que ele volta ao essencial: a fé, a família, a gratidão a Hashem.
E eis que essa ideia, durante muito tempo percebida como algo próprio do povo de Israel, começa a ser reconhecida publicamente na escala de uma grande nação. Isso não é algo trivial. É como se o mundo dissesse, à sua maneira: “Há aqui uma sabedoria que ignoramos… e da qual precisamos.”
O que torna esse acontecimento ainda mais impactante é que ele não surge no vazio. Já antes, vozes influentes no mundo haviam evocado a ideia de um dia de descanso inspirado no modelo do Shabat. Mesmo em outras esferas religiosas, a ideia de que a humanidade precisa de uma pausa semanal, de um tempo sagrado, foi expressa com força.
Mas aqui, algo muda: já não é apenas uma ideia… é uma proclamação. Um país inteiro é convidado a parar. A agradecer. A reconhecer o Criador.
Isso ressoa quase como um eco distante das palavras dos profetas: um mundo em que a consciência de Hashem se torna natural, em que os valores espirituais recuperam seu lugar no centro da vida humana.
É claro, ainda não estamos numa realidade perfeita. O Shabat não se reduz a um conceito de descanso universal — é uma aliança, uma profundidade, uma santidade única dada ao povo de Israel. Mas ver as nações começarem a reconhecer a sua beleza… isso já é extraordinário.
É um sinal. Um sinal de que a luz do Shabat transcende suas fronteiras. Um sinal de que a mensagem do povo de Israel continua a irrigar o mundo. Um sinal, talvez, de um despertar maior.
Porque o Shabat não é apenas um dia de descanso. É uma declaração: Hashem é o Dono do mundo. E quando essa ideia começa a ser ouvida, mesmo de longe, mesmo de maneira imperfeita — algo se abre.
Talvez o nosso papel, hoje mais do que nunca, seja simples: viver o Shabat com ainda mais força, ainda mais alegria, ainda mais verdade. Porque se o mundo começa a olhar para o Shabat… então verá a sua luz.
- traduzido do Espanhol para Português - Grupo Breslev Israel