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“Vejam, coloquei diante de vocês bênção e maldição.”
Assim se inicia a leitura dessa semana da Torá, Reê (Devarim 11:26-16:17), quando Moshê reitera, uma vez mais a doutrina do Livre Arbítrio. Liberdade de escolha. Sem isso, Maimônides nos lembra, a religião é sem sentido, a moralidade um não-conceito, a Torá supérflua.
De fato, não somente nos foi concedido um livre arbítrio entre o bem e o mal, mas também a opção de em qual nível fazer esta escolha. Uma escolha de escolhas, se me permite.
a – Há o bem e há o mal. Bênção e maldição, luz e trevas. D'us criou ambos. Escolhemos qual dos dois, ou qual combinação a partir deles, irá definir a nossa existência.
b – Na verdade, há apenas o bem. D'us é a fonte de toda realidade; e como D'us é a essência do bem, somente o bem é real. Assim como não há uma coisa como a escuridão – somente luz ou sua ausência (que chamamos “escuridão”) – assim também, há somente bem ou sua ausência. Ou em vez disso – como nenhum local é vazio de Sua presença – bem ou sua ocultação. Portanto, a opção entre bem e mal não é uma escolha entre duas realidades, mas uma escolha entre ser e não-ser, entre realidade e ilusão.
c – Como “escolha”, por definição, é a afirmação livre e desimpedida da vontade; e como a vontade intrínseca da alma humana é pela vida e bem-estar; a única escolha verdadeira que pode haver é a escolha do bem. Porém, nos foi concedida a liberdade de escolha, o que significa que podemos escolher não escolher; aquilo que chamamos “liberdade de escolha” é na verdade a escolha de exercer a opção ou de renunciar à escolha. Quando afirmamos nossa verdadeira vontade – quando escolhemos – invariavelmente optamos pelo bem.
Qual é então – a, b ou c? Isso é com você. Este é o verdadeiro significado de “livre arbítrio”: não que você possa meramente escolher entre duas ou mais opções apresentadas a você por uma autoridade superior, mas que é você que determina o nível de realidade na qual sua vida consciente se desdobra. É você que determina a distância entre sua vida e sua Fonte, e assim a forma pela qual o “Livre Arbítrio” entra em sua experiência.
Todos os anos, em Lag BaOmer (18 de Iyar), lembramos o grande e santo Tanna (sábio da Mishná) Rabi Shimon bar Yochai, que faleceu neste dia há cerca de dezoito séculos. Até hoje, judeus piedosos fazem uma peregrinação anual a Kefar Meron, na Terra de Israel, para orar no túmulo deste grande e santo erudito.
Aluno de Rabi Akiva
Quando Shimon era menino, estudou na grande academia de sábios de Yavne, fundada pelo Rabino Yochanan ben Zakai, que faleceu pouco antes do nascimento de Shimon. O principal professor de Shimon foi o famoso Rabi Akiva, que tinha sua academia em Benei Barak. Shimon era tão apegado ao seu mestre, Rabino Akiva, que este o chamava de "meu filho".
Durante a cruel perseguição do imperador romano Adriano, quando as academias talmúdicas foram fechadas e o estudo do Talmud foi proibido sob pena de morte, Rabi Akiva continuou a ensinar o Talmud publicamente, e seu devotado aluno Shimon permaneceu ao seu lado até a prisão de Rabi Akiva. Mesmo assim, Shimon continuou a visitar seu mestre na prisão para receber instrução. Somente a morte os separou, Rabi Akiva foi condenado a morrer como mártir por Kidush Hashem (santificação do nome de D’us).
Tornando-se um Rabino sob o Domínio Romano
Aqueles foram tempos muito difíceis para o povo judeu na Terra de Israel, sob a brutal perseguição do imperador romano Adriano. Era particularmente difícil para os sábios estudarem o Talmud e conduzirem escolas. Sob pena de morte, também era proibido ordenar estudantes do Talmud. Tanto o sábio que ordenava quanto o estudioso eram mortos caso fossem pegos. Toda a vida religiosa judaica estava em perigo, até que o grande Rabino Yehudah ben Baba ordenou publicamente cinco estudiosos famosos, desafiando o cruel decreto de Adriano. Rabi Shimon foi um desses cinco, (Rabino Meir foi outro.) As autoridades romanas logo perseguiram esses destemidos judeus. Os estudiosos ordenados escaparam, mas Rabino Yehuda ben Baba foi capturado e morto.
Desafiando os Romanos
Finalmente, o cruel Adriano morreu em grande sofrimento, e seus decretos deixaram de ser aplicados com a mesma brutalidade de antes. Então, os principais sábios da época se reuniram para considerar maneiras de restaurar a vida religiosa judaica. Entre os principais sábios reunidos em Usha, encontramos novamente Rabi Shimon. Por razões de segurança, os sábios se mudaram para Yavne, onde se reuniram em uma conferência em um vinhedo.
Os principais sábios eram Rabi Yehuda, Rabi Yosei, o Galilita, e Rabi Shimon bar Yochai. Discutindo qual postura adotar em relação ao governo romano, Rabi Yehuda sugeriu uma postura amigável, Rabi Yosei não expressou opinião, enquanto Rabi Shimon falou com muita amargura dos tiranos romanos e defendeu toda e qualquer resistência possível. Pois Rabi Shimon jamais poderia esquecer a terrível cena de seu amado mestre e professor, Rabi Akiva, sendo torturado até a morte pelos carrascos romanos. Os sábios não sabiam que sua conversa estava sendo ouvida por um certo jovem, Judah ben Gerim.
Outrora discípulo de Rabi Shimon, Judah ben Gerim mais tarde tornou-se espião das autoridades romanas. Esse homem traiçoeiro relatou a conversa dos sábios às autoridades romanas. Imediatamente, decretaram honra e posição para Rabi Yehuda por falar favoravelmente deles, exílio para Rabi Yosei por não fazê-lo e morte para Rabi Shimon, que ousou desafiá-los.
Vida na Caverna
Rabi Shimon fugiu para salvar sua vida junto com seu filho, Rabi Elazar. Por algum tempo, eles permaneceram escondidos no Bet Hamidrash (academia), onde a esposa de Rabi Shimon lhes trazia pão e água diariamente. Quando as buscas se intensificaram, eles decidiram procurar um esconderijo melhor. Sem revelar a ninguém seu paradeiro, esconderam-se em uma caverna. D’us fez brotar uma alfarrobeira na entrada da caverna, bem como uma fonte de água fresca. Por doze anos, Rabi Shimon bar Yochai e seu filho Elazar viveram na caverna, sustentando-se com alfarroba e água. Durante esse tempo, estudaram e rezaram até se tornarem os sábios mais sagrados de sua época.
Retorno aos Assuntos Mundanos
Ao final dos doze anos, o Profeta Eliyahu trouxe-lhes a boa nova de uma mudança no governo e um alívio. Pai e filho então deixaram a caverna. Passando por um campo onde viram agricultores judeus trabalhando na terra, disseram: “Imaginem as pessoas abandonando o estudo sagrado da Torá por assuntos mundanos!”
Assim que terminaram de falar, toda a produção do campo queimou e se transformou em fumaça e cinzas. Então ouviram uma voz celestial dizendo: “Vocês vieram para destruir o Meu mundo? Voltem para a sua caverna!”
Retornaram à caverna por mais doze meses e a deixaram somente depois de ouvirem a mesma voz celestial chamando-os para partir.
Desta vez, eles saíram com uma perspectiva diferente da vida. Ao verem um judeu carregando dois ramos de murta, voltando apressado para casa na tarde de sexta-feira, perguntaram-lhe o que pretendia fazer com a murta.
“É para adornar minha casa em honra ao Shabat”, respondeu o homem. “Um ramo de murta não seria suficiente para perfumar sua casa?”, perguntaram.
O desconhecido respondeu:
“Estou levando dois ramos, um para ‘Lembrar o Shabat’ e o outro para ‘Santificar o Shabat’”.
Rabino Shimon então diz ao seu filho: .
“Veja como os preceitos são preciosos para nossos irmãos!”
Satisfeitos por, apesar de todos os decretos e perseguições dos cruéis governantes romanos, os judeus ainda se apegarem aos mandamentos e, especialmente, à observância do Shabat, Rabi Shimon e seu filho se sentiram muito encorajados.
Prosseguindo sua jornada, encontraram o Rabino Pinchas ben Yair, outro famoso erudito sobre quem existem tantas histórias maravilhosas no Talmud. O Rabino Pinchas ben Yair era sogro de Rabi Shimon e veio ao seu encontro. Ao ver os terríveis efeitos da vida prolongada na caverna sobre a saúde de seu genro, Rabino Pinchas ben Yair caiu em prantos, mas Rabi Shimon o consolou dizendo que ele jamais teria alcançado um grau tão elevado de erudição e sabedoria Divina se não tivesse passado tantos anos na caverna.
Ensinando em Tecoa
Rabi Shimon bar Yochai se estabeleceu na cidade de Tecoa, onde fundou uma grande academia. Os maiores eruditos da época se reuniam ali para receber sua instrução e ensinamentos. Entre eles estava o Rabino Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Gamliel, o Nassi, posteriormente compilador da Mishná.
Certo dia, Rabi Shimon encontrou Judah ben Gerim, o espião traiçoeiro que lhe causara tantos problemas. Rabi Shimon exclamou:
"Este homem ainda está vivo?" e, pouco depois, Judah ben Gerim faleceu.
Mais uma vez, a perseguição religiosa aumentou. Os romanos proibiram a observância do Shabat e a prática de outras importantes leis judaicas. Os Sábios decidiram enviar uma delegação a Roma e escolheram Rabi Shimon bar Yochai para liderá-la.
Quando chegaram a Roma, souberam que a filha do imperador romano havia perdido a sanidade e que ninguém conseguia curá-la. Rabi Shimon bar Yochai dirigiu-se ao palácio e pediu permissão para tratar a paciente.
Após alguns dias de tratamento, a princesa recuperou a saúde. Em gratidão, o imperador disse a Rabi Shimon que ele poderia escolher o objeto mais precioso de seu tesouro. Rabi Shimon encontrou ali os decretos originais de perseguição e os reivindicou como sua recompensa. Assim, ele conseguiu trazer grande salvação ao seu povo.
Mestre de Israel
Rabi Shimon bar Yochai foi um dos maiores mestres da Lei e da ética judaicas. Seus muitos ditos e leis no Talmud refletem sua santidade de caráter e devoção à Torá.
Certa vez, ele disse: "Se eu estivesse presente na entrega da Torá no Monte Sinai, teria exigido duas bocas: uma para o estudo contínuo das palavras da Torá e a outra para comer." Mas então ele admitiu que isso não seria muito sábio, pois mesmo agora, quando o homem tem apenas uma boca, ele diz tantas coisas erradas. Quanto mais se tivesse duas!
Embora tenha vivido como um recluso por muitos anos, Rabi Shimon conhecia a importância de bons relacionamentos humanos. Alguns de seus ditos: "É melhor um homem se atirar numa fornalha ardente do que ofender o outro em público", Enganar alguém com palavras é pior do que roubar-lhe dinheiro”, "Aquele que se deixa dominar pela arrogância é como o pagão que adora ídolos."
Em Pirkei Avot, "Ética dos Pais", há um de seus ensinamentos:
"Existem três coroas: a coroa da Torá, a coroa do sacerdócio e a coroa da realeza; mas a coroa de um bom nome se destaca acima de todas elas."
Rabi Shimon bar Yochai é o autor do sagrado Zohar ("Brilho"), que contém interpretações místicas da Torá e é a principal fonte da Cabala. Por muitas gerações, os ensinamentos do sagrado Zohar foram estudados por alguns poucos eruditos, até que o grande erudito Rabi Moses ben Shem Tov de Leon publicou o Zohar há cerca de setecentos anos. Rabi Shimon também é autor de Sifri e “Mechilta de Rabi Shimon bar Yochai”.
Rabi Shimon bar Yochai faleceu em Meron, uma vila perto de Safed, na Terra de Israel. Como mencionado anteriormente, muitos judeus fazem uma peregrinação anual ao seu túmulo no dia 18 de Iyar (Lag BaOmer), o dia de sua morte, onde acendem velas, rezam junto ao seu túmulo e, cumprindo o seu desejo, celebram a data com cânticos e alegria.
Este trecho em que Moshé Rabenu se dirige a HaShem é muito breve no texto, mas na realidade abre uma profundidade imensa, especialmente quando é lido com a sensibilidade da emuná e a perspectiva de Rabi Nachman.
Moshé sabe que está prestes a deixar este mundo. No entanto, em vez de falar de si mesmo, de seus méritos ou de seu lugar, ele se volta imediatamente para o futuro do povo. Ele diz a HaShem, em essência: “Tu és o D’us dos espíritos de toda carne, Tu conheces cada alma em sua singularidade… por isso dá ao povo um líder.”
A expressão é muito importante: “D’us dos espíritos de toda carne”. Isso significa que HaShem não vê os seres humanos como um bloco uniforme. Cada pessoa tem uma estrutura interior distinta, uma sensibilidade diferente, uma maneira diferente de compreender e de viver as coisas. Portanto, se o povo deve ser guiado, precisa de um condutor capaz de sustentar essa diversidade sem quebrá-la.
Moshé descreve então a situação com uma imagem muito simples, mas muito poderosa: um rebanho sem pastor. Um rebanho sem pastor não está simplesmente “desorganizado”. Ele está exposto, disperso, vulnerável, incapaz de se proteger ou de se reunir. Moshé entende que a maior fragilidade de um povo não é externa, mas interna: é a ausência de direção.
Ao mesmo tempo, aqui há uma emuná muito profunda. Moshé não pensa que tudo depende unicamente do homem. Seu pedido é dirigido a HaShem. Isso significa que ele reconhece que o verdadeiro condutor da história não é um líder humano, mas o próprio HaShem. O líder é apenas um intermediário, um canal. E mesmo quando Moshé desaparece, o povo não desaparece com ele, porque a guia sempre provém de HaShem.
É aqui que o ensinamento de Rabi Nachman acrescenta uma camada adicional de profundidade. Para Rabi Nachman, a noção de “pastor” não se limita a uma figura política ou mesmo histórica. O pastor representa a conexão viva entre a alma e HaShem.
Na vida interior da pessoa, há momentos em que tudo se confunde: os pensamentos se contradizem, as emoções tomam o controle, a clareza desaparece. Nesses momentos, a pessoa pode sentir de verdade o que significa estar “sem pastor”, ou seja, sem uma direção interior estável.
Por isso o tzadik, na visão de Rabi Nachman, desempenha um papel essencial: ele traz clareza (daat), lembra à pessoa onde está HaShem, mesmo quando ela já não O sente. Ele não substitui HaShem, mas ajuda a reconectar a pessoa com HaShem. Age como uma luz na neblina.
E, no entanto, Rabi Nachman sublinha algo ainda mais profundo: mesmo quando o tzadik não é visível, mesmo quando a guia parece ausente, isso nunca significa que HaShem tenha abandonado o mundo. A sensação de ser um “rebanho sem pastor” é muitas vezes uma percepção humana, não uma realidade divina. Na verdade, HaShem continua guiando cada detalhe, cada caminho, cada desvio.
Assim, a oração de Moshé pode ser compreendida em dois níveis ao mesmo tempo. No nível externo, ele está pedindo um líder concreto, alguém que possa carregar o povo, guiá-lo, protegê-lo e manter sua unidade. Sem isso, o povo corre o risco de se dispersar na confusão.
No nível interno, tal como o revela Rabi Nachman, ele também está expressando uma verdade espiritual permanente: o ser humano precisa de uma conexão viva com HaShem para não se perder em seu mundo interior. E essa conexão pode passar por meio de um tzadik, de uma palavra de verdade ou até mesmo de um pequeno ponto de clareza que desperta no coração.
Por isso, o pedido de Moshé é também uma forma de emuná pura. Ele não está dizendo: “tudo depende do líder”. Ele está dizendo: “dá-nos um líder, porque sem Tua guia não podemos avançar”. É o reconhecimento de que até o maior dos líderes não é mais que um instrumento nas mãos de HaShem.
E isso traz um grande consolo. Porque na vida há momentos em que a pessoa perde seus referenciais, quando as figuras de guia desaparecem ou já não estão acessíveis. Mas este trecho nos lembra que nunca há um abandono verdadeiro. Mesmo na escuridão, a guia continua. Às vezes visível, às vezes oculta, mas sempre presente.
E, no fim, talvez esta seja a mensagem mais forte de todas: mesmo quando a pessoa se sente como um rebanho sem pastor, nunca está sem HaShem.
Do “Manual de Pensamento Judaico”, do Rabino Aryeh Kaplan. Publicado em Aish.com
Por Aryeh Kaplan
O objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.
Ouça este artigo:
A fé em D’us é o fundamento do judaísmo... A fé não é apenas a expressão de palavras, mas uma crença e convicção firmes na mente e no coração. É também um compromisso que se manifesta em ações, com uma adesão sincera ao caminho prescrito por D’us. É por isso que a mera crença sem obediência a Ele é um absurdo...
Nossa fé começa com as tradições que nos foram transmitidas por nossos ancestrais e em nossa literatura sagrada. Através delas, conhecemos a D’us, Suas obras e Seus ensinamentos. A Torá nos diz: "Pergunte a seu pai, e ele lhe dirá; pergunte a seu avô, e ele lhe informará" (Devarim 32:7). Ela também declara [no Shemá]: "Ouve, ó Israel, o Senhor é nosso D’us, o Senhor é Um" (Devarim 6:4), o que implica que devemos aceitar essas verdades com base no que ouvimos e compreendemos.
Há quem defenda que este é apenas um primeiro passo, enquanto o nível mais elevado de fé provém da comprovação filosófica dessas verdades. Segundo essa opinião, quem tem capacidade para tal deve tentar provar os fundamentos da nossa fé. Isso é sugerido em passagens como "Saibam que D’us é o Senhor; Ele nos fez e somos Dele" (Tehilim 100:3), que indicam que o objetivo final é o conhecimento, e não a mera tradição.
Há outros, porém, que sustentam que a fé mais elevada é aquela derivada unicamente da tradição, caso em que a comprovação metafísica só deve ser usada como último recurso para evitar a descrença. De acordo com essa opinião, uma fé bem fundamentada e um profundo conhecimento de D’us podem ser obtidos somente pela tradição.
Em última análise, devemos nos esforçar para aprender os fundamentos da nossa fé e adquirir uma compreensão profunda deles, visto que a crença baseada em mero hábito e tradição cega é uma fé frágil, que pode ser atacada por dúvidas e refutada por argumentos.
Uma fé forte, portanto, baseia-se tanto na razão quanto na tradição, como ensinou o profeta: "Acaso não sabeis? Acaso não ouvistes? Não vos foi dito desde o princípio? Acaso não compreendeis como foi fundada a terra?" (Yeshayáhu 40:21). De maneira semelhante, somos ensinados: "Conhecei o D’us de vosso pai" (1 Crônicas 29:9). Em cada caso, somos instruídos a conhecer e compreender racionalmente aquilo que nos foi ensinado e recebido pela tradição.
Se alguém tem a capacidade, deve usar seu conhecimento para acrescentar ao que foi derivado da tradição. Assim, lemos: "Este é o meu D’us, e eu o glorificarei; o D’us de meu pai, e eu O exaltarei" (Shemot 15:2), o que indica que Ele é o meu D’us segundo o meu próprio entendimento, ao mesmo tempo que é o D’us de meu pai segundo a tradição. De forma similar, oramos: "Nosso D’us e D’us de nossos pais", e os judeus são chamados de "crentes, filhos de crentes".
Perguntas e Dúvidas
Se alguém tiver condições, deve aprender o suficiente em ciência para reconhecer o mundo como uma obra Divina e compreender Sua grandeza, conforme declara o profeta: "Levantai os vossos olhos para as estrelas e vede quem as criou" (Yeshayáhu 40:26). Se alguém for estudioso, deve fazer isso quando não puder se dedicar a estudos religiosos.
Ao mesmo tempo, deve-se evitar especulações metafísicas inúteis, bem como o estudo da filosofia em geral, pois tendem a minar a fé. Se alguém se encontrar em uma posição em que precise se dedicar a tais estudos, pode fazê-lo, mas com a máxima cautela.
O caminho para a verdadeira fé passa pela observância e pelo estudo dos nossos ensinamentos religiosos. Mesmo que alguém sinta que sua fé está fraca, deve continuar suas observâncias e estudos, e eles o trarão de volta a Sua fonte. Somos ensinados que D’us disse: "Se eles Me tivessem abandonado, mas guardado a Minha Torá, a luz inerente dela os teria trazido de volta a Mim".
Por outro lado, se alguém não estudar nossos ensinamentos religiosos, poderá se ver deixando de observar os mandamentos. Isso o levará a desprezar aqueles que os observam e até mesmo a odiar nossos mestres. Ele poderá então tentar impedir que outros observem, pois terá encontrado uma maneira de negar a própria origem Divina. A Torá adverte sobre esse tipo de progressão quando diz: "[Mas isto é o que acontecerá] se vocês não Me ouvirem e não guardarem todos estes mandamentos: vocês passarão a denegrir Meus decretos e se cansarão das Minhas leis. Vocês não guardarão todos os Meus mandamentos e acabarão por anular a Minha aliança" (Vayicrá 26:15).
Se alguém se depara com perguntas e dúvidas a respeito dos fundamentos de nossa religião, deve ter fé de que essas perguntas podem ser respondidas. Nada pode resistir à fé absoluta, como nos ensinou o profeta: "O justo viverá pela sua fé" (Habakuk 2:4).
Se alguém sente que sua fé está vacilando, deve ponderar cuidadosamente a possível perda que a descrença acarretará em relação a qualquer benefício que ela possa trazer. Deveria confiar nas próprias convicções e não duvidar de seus próprios motivos.
Nível Mais Elevado de Fé
Alguns descrentes tentam explicar nossa crença psicologicamente. No entanto, o mesmo argumento pode ser usado em relação à descrença deles. Além disso, há considerável evidência objetiva da veracidade de nossa religião.
Há muitos ensinamentos em nossa religião que são conhecidos apenas pela tradição e não podem ser comprovados de forma alguma. Há um limite além do qual a prova racional falha e se desfaz, e é aí que devemos nos apoiar na fé e na tradição.
“A Torá não nos obriga a acreditar em absurdos.”
Contudo, a Torá não nos obriga a acreditar em absurdos, e devemos examinar cuidadosamente as fontes de crenças comuns absurdas para determinar se elas realmente têm fundamento na tradição. A respeito disso, está escrito: "O insensato crê em tudo, mas o prudente segue o caminho reto" (Mishlê 14:15).
Portanto, devemos estudar cuidadosamente e confiar nas palavras e nos escritos de nossos profetas e sábios. A crença em nossos grandes líderes, que são os pastores de nossa fé, equivale à crença no próprio D’us. Assim, somos ensinados que "crer no fiel pastor é como crer naquele que falou e trouxe o universo à existência". Da mesma forma, está escrito: "Creiam em D’us e vocês serão firmados; creiam nos Seus profetas e vocês prosperarão" (2 Crônicas 20:20).
O nível mais elevado de fé, alcançado apenas por indivíduos como nossos profetas e homens santos, é a transcendência de sua própria natureza física até que eles realmente experimentem o Divino e possam dizer: "Este é o meu D’us" (Shemot 15:2). Uma vez que uma pessoa tenha experimentado isso, não poderá haver dúvidas em sua mente, pois ela ultrapassou a mera fé e crença e alcançou o conhecimento inequívoco do Criador. Para quem nunca experimentou isso, é tão inimaginável quanto a cor é para um cego.
Respondendo ao Não-Crente
A fé em D’us e em nossos fundamentos religiosos é nossa posse mais preciosa e deve ser guardada como tal. A Torá reconhece o ateu e o chama de tolo, como está escrito: "Diz o insensato no seu coração: Não há D’us" (Tehilim 14:1).
Portanto, somos instruídos a não deixar que pensamentos ateístas ou desejos materiais minem nossa fé, como declara a Torá: "Não te desvies segundo o teu coração, nem segundo os teus olhos" (Bamidbar 15:39).cs
Este é um mandamento negativo, que depende do pensamento, e pode ser observado a qualquer momento, afirmando a própria vontade e recusando-se a ser desviado da nossa fé...
Deve-se estar suficientemente familiarizado com os fundamentos da nossa religião e seus argumentos racionais para saber como responder ao descrente. No entanto... deve-se, portanto, participar de um debate religioso apenas quando este for iniciado pelo descrente e houver o perigo de que ele possa influenciar outros, e mesmo nesse caso, não se deve debater a menos que se esteja completamente familiarizado com a questão e seja hábil em debater. Se alguém tem confiança de que pode prevalecer, pode debater, como nos é ensinado: "Responda ao tolo segundo a sua tolice, para que ele não se julgue sábio aos seus próprios olhos" (Mishlê 26:5).
Confiar em Milagres
Fé e confiança em D’us são parceiras, visto que aquele que crê em um D’us onisciente, onipotente e benevolente também deve crer que Ele proverá para os Seus fiéis. Portanto, deve-se confiar em D’us e não se preocupar excessivamente com o futuro. Assim está escrito: “Entregue o seu caminho a D’us. Confie nele, e ele agirá” (Tehilim 37:5) e “Bem-aventurado o homem que confia em D’us; D’us será o seu refúgio” (Yirmiyáhu 17:7).
Portanto, não se deve buscar prever o futuro por meio de adivinhação, astrologia ou outras superstições. A respeito disso, a Torá nos ordena: “Seja fiel a D’us, seu Senhor” (Devarim 18:13), o que algumas autoridades consideram um mandamento positivo.
Confiar em D’us não significa negligenciar planos para o futuro, nem significa ficar de braços cruzados esperando que Ele o alimente milagrosamente ou que negligencie a própria saúde, esperando que D’us o mantenha saudável. Sobre isso, está escrito: “A insensatez do homem perverte o seu caminho; no seu coração, ele acaba culpando a D’us” (Mishlê 19:3).
Certamente, ninguém deve se colocar em perigo e depois confiar em um milagre para salvá-lo. Mesmo em situações onde milagres eram prováveis, nossos sábios não dependiam deles e até se recusavam a se beneficiar deles.
Não devemos testar a D’us exigindo recompensa imediata por nossas boas ações. Se alguém está praticando uma boa ação, pode confiar em D’us e ignorar um possível perigo. Ainda assim, se o perigo for provável, é necessário que esteja atento.
Somos ordenados a não testar a D’us pedindo um milagre ou exigindo uma recompensa imediata por nossas boas ações, como está escrito: "Não ponha à prova o Senhor teu D’us" (Devarim 6:16). A única exceção a isso é o mandamento da tsedacá, caridade, sobre o qual D’us diz: "Trazei todos os dízimos... e com isso ponham-me à prova, diz o D’us dos Exércitos, para ver se eu abro as janelas do céu e derramo sobre vós uma bênção abundante" (Mal’Achi 3:10).
Alguns defendem que se pode pedir a D’us um sinal para ajudar a tomar uma decisão difícil, caso não haja outros meios lógicos disponíveis, mas isso só deve ser usado como último recurso...
Muito grande é a recompensa da fé. Assim, vemos que nossos ancestrais foram redimidos do Egito por causa de sua fé e confiança em D’us.
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo.
Rabino Lazer Brody
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo. E que, na minha opinião, é pior até do que um ato terrorista.
A Lei Judaica estabelece que Yom Kipur não expia os pecados entre o indivíduo e o seu próximo. Em outras palavras: não podemos pedir a HaShem que nos perdoe por ter causado dor a outra pessoa até que primeiro peçamos perdão a essa pessoa.
Pedir perdão a outra pessoa é muito mais complexo do que pedir perdão a HaShem. Justamente em relação a esse tema quero compartilhar com vocês uma história verídica que me trouxe lágrimas aos olhos quando me foi contada pelo Rabino Shalom Arush.
Em Israel, no mundo das escolas para meninas e adolescentes, está muito difundido o conceito de “malkat ha‑kitá”, a rainha da classe. Muitas vezes, a rainha da classe é uma aluna loira e de olhos azuis, filha de alguém abastado ou de alguém com muita influência na comunidade, e que adora se divertir às custas dos outros. Rina, de dezessete anos, estudava em Bnei Brak, Israel, no colégio secundário, e era a “Rainha da Classe”.
Certa vez, uma de suas colegas, Rebeca, que não era nem tão bonita nem tão popular, que além disso tinha o cabelo crespo e era filha de um taxista, chegou à classe com o cabelo cortado em forma de cogumelo. A “Rainha”, que vivia rondando em busca de alguma boa piada às custas dos outros, ao vê‑la, exclamou bem alto: “Alguém sentiu que chovia dentro da sala? Estão crescendo cogumelos na sala!”. E então todas as alunas explodiram em uma estrondosa gargalhada.
Rebeca sentiu o rosto ficar da cor de tomate e depois branco, como se alguém lhe tivesse feito um corte na garganta. A pobre garota sentiu‑se terrivelmente humilhada, a ponto de quase desmaiar. Exatamente naquele momento soou o sinal e a professora pediu que todas as alunas se sentassem em seus respectivos lugares. Nossa vítima sentou‑se numa poça de lágrimas, que bem poderia ter sido uma poça do seu próprio sangue.
A rainha da classe era uma artista na arte de rir às custas dos outros, que é a pior forma de crueldade e cinismo. E que, na minha opinião, é pior até do que um ato terrorista.
Não só Rebeca não conseguiu prestar atenção ao que dizia a professora, como perdeu toda a sua autoestima e a confiança em si mesma. A dor e o sentimento de vingança eram como ácido que lhe corroía o coração. Nada ia bem para ela. Naquele mesmo ano toda aquela turma se formou no colégio secundário e ela não conseguiu encontrar trabalho. Uma por uma, suas colegas foram se comprometendo e nossa vítima nem sequer recebia propostas de casamento. Não tinha sucesso em nada do que fazia. E assim foi como a pobre Rebeca se transformou numa jovem triste, amarga, nervosa e vingativa.
Decorreram dez anos e agora Rebeca era uma flor murcha de vinte e sete anos que ainda morava na casa com sua mãe.
Enquanto isso, a rainha da classe recebeu uma prestigiosa proposta de casamento com uma rica família de Boro Park, EUA. Depois de seu casamento em Israel, Rina mudou‑se para a América do Norte com seu novo marido. Ela tinha uma fortuna e morava numa mansão, mas dez anos mais tarde ainda lhe faltava a principal alegria da vida: os filhos. Todas as suas amigas já iam no quarto ou quinto filho, mas ela continuava sem conseguir ser mãe.
No bairro de Rina morava Sari, outra ex‑colega de classe. Sari também se casara com um rapaz de Boro Park e também tinha ido morar nos EUA. De fato, os maridos de ambas estudavam juntos. A rainha da classe costumava suplicar à sua ex‑colega que fosse visitá‑la, tomar chá e conversar em sua casa, mas Sari sempre tinha uma boa desculpa: agora ela tinha dois filhos ao lado, outros dois no carrinho de gêmeos e um quinto a caminho. No entanto, a rainha da classe a encurralou e literalmente a forçou – a ela e a seus filhos – a irem tomar chá com ela. Uma vez em sua casa, Rina perguntou a Sari: “Por que você me evita o tempo todo? Por que dá a impressão de que todos evitam minha presença? Tenho uma vida cheia de tristeza e nem sequer entendo por quê”.
Sari enrubesceu e não quis dizer nada, mas Rina, a ex‑rainha da classe, insistiu tanto que finalmente Sari disparou: “Está bem, Rina, se você realmente quer saber a verdade, tenho que confessar que jamais em toda a minha vida esquecerei sua crueldade. Não sei com quem compará‑la… talvez com um assassino? Com um nazista? Acaso não sabe que você destruiu a vida da Rebeca?”. Sari mantinha contato regular com Rebeca e de vez em quando telefonava para ela.
A rainha da classe pediu a Sari o número de telefone de Rebeca, porque sabia que a jovem mãe estava dizendo a absoluta verdade. Foi assim que decidiu ligar para a vítima e pedir perdão.
Ao ouvir a voz de Rina, Rebeca gritou descontroladamente: “A que você se refere? Você me envergonhou em público, causou‑me uma dor e uma pena indescritíveis, e agora quer apagar dez anos de sofrimento e solidão com uma ligação telefônica porque você é a rainha da classe? De jeito nenhum! Não quero ver você nem ouvir nada de você pelo resto da minha vida! Acaso não lhe basta ter me perseguido todos esses anos como um fantasma, sem permitir que eu vivesse uma vida normal, feliz e plena?”. Então a vítima desligou o telefone.
Uma semana mais tarde, alguém bateu à porta da casa da vítima. Rina, com os olhos vermelhos de tanto chorar, suplicou à mãe de Rebeca que a deixasse entrar em seu modesto apartamento de dois cômodos em Bnei Brak. A princípio, Rebeca recusou‑se a falar com Rina. Mas sua mãe a convenceu e então Rebeca foi até a porta. A mulher estéril, com os olhos cheios de lágrimas e vestida com recato, não era a Rina arrogante e esnobe que ela lembrava. Instantaneamente, cada uma sentiu a dor da outra e caíram nos braços uma da outra, abraçando‑se e chorando. Os corpos de ambas se sacudiam com o choro, numa catarse de anos inteiros de frustração, lamento e emoções contidas. Cada uma contou à outra a história de sua vida durante os últimos dez anos. Finalmente, disseram uma à outra: “perdão”.
Muito em breve a rainha da classe engravidou e a vítima se comprometeu com seu futuro marido.
Mais tarde, a vítima se deu conta de que havia sofrido uma dupla tortura: primeiro, pela humilhação, mas também, e ainda pior, pelos dez anos de ódio ardente e sentimento de vingança, que lhe corroía as paredes da alma como um ácido.
Mas surge aqui uma pergunta: nesta história, vemos que a vítima também foi castigada. Por quê? O que foi que ela fez de errado?
O Rabino Shalom me explicou da seguinte forma:
Se alguém sofre por sua culpa, então você também sofre. É por isso que todas as noites, antes de irmos dormir, dizemos no Kriat Shemá: “que ninguém seja castigado por minha causa”.
Temos que ter muito cuidado para não causar dor a nenhum ser humano na terra. Mas, se alguém nos causa dano, devemos aceitá‑lo com Emuná – por mais doloroso que seja – e saber que tudo o que HaShem faz é justiça perfeita. Joguemos a culpa do nosso sofrimento nas transgressões que cometemos e que não retificamos.
Quando perdoamos os outros, HaShem nos perdoa por nossas faltas, medida por medida. Mas, quando a pessoa exige justiça, então HaShem examina a pessoa que exige justiça e abre o registro dessa pessoa.
Em Yom Kipur queremos expiar nossos pecados. Não queremos que abram novamente nosso “histórico”. Por isso, perdoemos todos os que nos causaram dor ou pena. E, com a ajuda de Deus, todos seremos inscritos no Livro da Longa Vida para um maravilhoso Ano Novo. Amém!
Fonte: traduzido do Espanhol - Redação Breslev Israel
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao incômodo, ele continuou, nada o deteria...
Rabino Lazer Brody
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao incômodo, ele continuou, nada o deteria…
“E o povo ficou de longe, e Moisés aproximou-se da densa nuvem na qual se encontrava Di–s” (Êxodo 20:18).
Depois de ver e ouvir a glória de HaShem, o Criador do Universo, na primeira festividade de Shavuot, quando o povo de Israel recebeu a Torá, a Lei Divina, eles tremeram de medo. O Midrash nos conta que os anjos tiveram que fazer as almas voltarem aos corpos dos israelitas; de outra forma, o povo não teria conseguido manter sua existência física na presença de tamanha santidade.
A Torá é o “Projeto da Vida”. Portanto, a descrição do versículo acima sobre Shavuot e a recepção da Torá carrega duas mensagens intrínsecas particulares que ensinam uma importante lição sobre o serviço ao Criador. O Rebe Nachman de Breslev escreve (Likutey Moharan I, 116):
“As forças espirituais do Juízo Severo denunciam aquele que – em virtude de seus próprios atos – não é digno de alcançar a proximidade do Criador, e se recusam a permitir que ele se una a um Verdadeiro Tzadik (Justo) e ao Caminho da Verdade. HaShem ama a justiça; portanto, Ele deve, aparentemente, consentir em impedir essa pessoa de alcançar o caminho da vida, à luz das más ações dessa pessoa segundo a justiça, já que Ele ama a justiça.
Mas, na verdade, HaShem, bendito seja, ama Israel, e Seu amor por Israel é maior que Seu amor pela justiça. Então, o que Ele faz? Aparentemente, Ele deve concordar com as demandas da justiça de rejeitar uma pessoa que deseja alcançar a verdade, já que essa pessoa provocou o Juízo Severo. Porém, na realidade, apesar de seu passado, HaShem deseja que ela se aproxime d’Ele, pois Ele ama Israel mais do que a justiça que a condena. Por isso, HaShem consente em permitir que essa pessoa seja afligida por obstáculos, e Ele mesmo Se oculta dentro deles. Qualquer pessoa que possua Consciência Espiritual pode encontrar o Criador, que Se esconde justamente dentro dos próprios obstáculos.
Na verdade – não existem obstáculos de fato, pois a pessoa pode se aproximar de HaShem por meio deles, já que Ele Se oculta dentro deles!”
À luz dos ensinamentos assombrosos de Rabi Nachman, podemos interpretar corretamente as alusões do versículo:
“E o povo ficou de longe” – à luz de suas ações passadas como escravos no Egito, tendo aprendido muitas más influências dos egípcios, o povo – segundo o Juízo Divino – não merecia ser recompensado com a proximidade de HaShem. Hoje, esse mesmo versículo alude à pessoa que deseja retornar ao Criador, mas cujos atos passados provavelmente invocaram muitos Juízos Severos. Essa pessoa se sente afastada, obrigada a ficar “de longe”; muitos obstáculos dificultam seu processo de Teshuvá – arrependimento e retorno a HaShem – desencorajando-a. Na realidade, HaShem Se esconde dentro desses obstáculos, esperando que a pessoa seja suficientemente corajosa para superá-los. HaShem está próximo o tempo todo!
“Moisés aproximou-se da densa nuvem na qual se encontrava Di–s” – “Moisés” alude à pessoa que quer se aproximar de HaShem a qualquer custo; ele ou ela não teme aproximar-se das “densas nuvens” – os obstáculos – onde HaShem realmente se encontra!
Tentaremos esclarecer a alusão da Torá e o elevado princípio de Rabi Nachman com a seguinte parábola:
Um grande urso marrom estava com fome. Olhava por toda parte procurando alimento; encontrou alguns cardos e alguns tubérculos, mas desejava algo mais – mel! O mel era sua comida favorita, e ele percorreu bosques e prados à procura dele.
Entre os majestosos carvalhos brancos, o urso encontrou apenas bolotas. “Eu não sou um esquilo”, queixou-se consigo mesmo. “Preciso de algo doce – preciso de mel! Deem-me mel!” Entre as coníferas, encontrou algumas pinhas, mas tinham um gosto de aguarrás. Ao longe, seu nariz sensível sentiu um perfume delicioso – o aroma perfumado da flor silvestre da qual se extrai o mel!
O urso apressou-se em direção ao lugar de onde vinha o cheiro. De repente, uma abelha zumbiu junto ao seu ouvido. Sem prestar nenhuma atenção ao pequeno incômodo, ele continuou, nada o deteria. Outra abelha pousou em seu nariz, e uma terceira teve a audácia de picá-lo no lugar mais sensível de seu corpo. Não demorou muito e o urso estava envolvido por uma nuvem de abelhas furiosas.
Quanto mais abelhas chegavam, mais feliz ficava o urso, pois sabia que as colmeias e os favos de mel estavam perto dele. Por causa de seu objetivo, suportou o aumento das picadas, continuando na direção da fragrância embriagadora do mel, que ficava mais forte a cada momento. Sem perder de vista seu objetivo, conseguiu enxergar: ali, na árvore à beira do prado, estava o favo de mel que tanto desejava!
Um urso faminto, com a boca cheia de mel, não presta a mínima atenção a nenhum obstáculo, nem mesmo a centenas de picadas de abelha!
Engraçado, mas até um urso sabe que, quanto mais abelhas encontra, mais perto está do mel. Em outras palavras, quanto maiores são os obstáculos ou a resistência espiritual, mais perto a pessoa está de HaShem e de Sua Torá.
Em Shavuot, quando HaShem deu Sua Torá ao Seu povo de Israel, temos a oportunidade anual de fortalecer nosso compromisso com HaShem e Sua Torá. Durante a noite de Shavuot, as forças do Juízo Severo reclamam que não merecemos a Torá. O que faz então HaShem? Ele aparentemente cede às demandas da Justiça e nos faz sentir sonolentos para nos impedir de estudar Torá.
Se você quisesse jogar cartas, bêbado de gim, durante a noite de Shavuot, não sentiria sono algum. Mas, assim que abre um livro de Guemará ou outro livro sagrado de Torá, suas pálpebras ficam pesadas. Assim como as abelhas estão próximas do mel, o obstáculo ou a fadiga estão próximos da Torá; vencendo nossa sonolência (que é, na verdade, o Criador escondido nela), temos a possibilidade única de desfrutar da iluminação do nosso compromisso renovado com a Torá. Nosso amor pela Torá – o mel de nossas almas – nos dá o poder de permanecer acordados toda a noite de Shavuot e nos dedicar novamente ao estudo da Torá, a Lei Divina.
Que todo o povo de Israel consiga vencer qualquer obstáculo que dificulte seu retorno a HaShem e à Sua Torá, ainda neste ano, amém!