Nossa verdadeira arma é cuidarmos da forma de falar; isso implica purificar nosso “eu”, o ser interno…
Daniel Domb
Nossa verdadeira arma é cuidarmos da forma de falar; isso implica purificar nosso “eu”, o ser interno…
Vestuários sagrados
O rei David expressou: “Quem é o homem que deseja a vida, que quer muitos dias para ver o bem? Guarda a tua língua do mal e os teus lábios de falarem engano! Afasta-te do mal e faz o bem, busca a verdade e persegue-a!” (Salmos 34:13-14).
O versículo em si utiliza uma expressão não tão feliz: “para ver o bem”; o vocábulo correto seria: “para fazer o bem”. Encerrada nessas palavras, não pronunciadas ao acaso, guarda-se uma intenção profunda: o piedoso rei David nos ensina a verdadeira e autêntica forma de nos conduzirmos em nossa vida: ver cada ato do nosso próximo de forma benevolente. Todos possuímos defeitos; o importante é minimizá-los e enaltecer suas virtudes.
O conceito de Lashón HaRá aparece em nossa Parashá, mais exatamente quanto à forma de expiar tal pecado:
“E estas são as vestes que farás: um peitoral e um efod, um manto e uma túnica, um turbante e um cinto… para Aharón e seus filhos, para que exerçam o sacerdócio diante de Mim…” (Êxodo 28:4).
O Talmud, no tratado Erchin (folio 16a), afirma: “assim como os Korbanot – os sacrifícios – servem para purificar a pessoa de seus erros, assim também as roupas dos sacerdotes cumprem essa mesma função”; e por isso estas Parashiot finais do livro de Êxodo, que tratam da construção e do uso do Santuário, dos utensílios do recinto sagrado e das vestes dos sacerdotes, estão relacionadas com o livro de Vaikrá, o livro do serviço no Tabernáculo – seu paralelismo se dá em consonância com sua finalidade.
“E farás o efod de ouro, fio azul-celeste, púrpura e carmesim…” (Êxodo 28:6).
O Efod possui uma propriedade excelsa: perdoar os pecados referentes à idolatria e, como explica o Kli Yakar: “Sua localização, sobre o coração, ressalta a dependência sentimental para poder concretizar esse perdão, e insinua que os pecados, especificamente em idolatria, dependem da intenção”; a ação é o passo final. A pessoa pode cometer idolatria com o pensamento, com o coração, e esse fato acaba sendo mais difícil de reparar, pois é um sentimento às vezes latente, mas que permanece por toda a vida. Quem oferece sacrifícios sem intenção, por pressão, tem seu arrependimento aceito imediatamente. A ação passa; o que perdura e se projeta para o futuro é unicamente o fato intelectual; assim, o mau pensamento provoca um afastamento do Criador maior do que a própria ação.
“E farás o peitoral do juízo ao estilo do efod, de ouro, fio azul-celeste, púrpura e carmesim…” (Êxodo 28:15).
Tanto o Chóshen como o Efod possuem a mesma essência: sua propriedade de perdoar. O Chóshen absolve os erros dos juízes, e se equipara a perdoar o pecado da idolatria, já que tais erros são produtos do coração, pois: “Os pensamentos dos justos são retidão” (Provérbios 12:5); o sentimento se concretiza como se fosse uma ação. Assim como diz o Talmud, no tratado Sanhedrin (folio 76): “Um juiz indigno é comparado àquele que planta uma árvore a que se faz idolatria”.
“E farás o manto do efod, o Meíl, todo de cor azul-celeste…” (Êxodo 28:31).
O Meíl influencia as esferas celestes apagando pela raiz o pecado de lashón hará e, como explica o Talmud, no tratado Zevachim (folio 88b): “O azul (do Tzitzit) assemelha-se ao tom do mar, e o tom do mar ao da cor do céu, e este, à cor do Trono Celestial”. E essa comparação serve para compreender a essência do Meíl: as cores não são iguais, e sim parecidas; por isso a necessidade dessa enumeração quase interminável. O azul do mar não está próximo da “tonalidade” do Trono Celestial; tudo requer uma comparação, um trabalho intelectual, pessoal, mas, ainda assim, seu tom é “celeste”! E também, assim como o Efod e o Chóshen, a purificação com o Meíl atua no plano do pensamento. Lashón hará incide mesmo sem pronunciar palavras; essa ideia está sintetizada na barra da túnica.
“E farás, na orla inferior, romãs de cor azul-celeste, púrpura e carmesim, com campainhas de ouro no meio delas, ao redor; uma campainha de ouro e uma romã, uma campainha e uma romã…” (Êxodo 28:33-34).
Deixando de lado a posição desses componentes, Rashi explica, em sua forma mais simples: “um ao lado do outro”. Já o Ramban entende: “um dentro do outro, a campainha por fora e a romã por dentro”. E desta última tese extrai-se um ensinamento sublime: dentro do silêncio da romã existe o pecado de lashón hará e seu perdão. Dentro do silêncio imutável habita o pensamento, tão tremendo quanto a campainha, que constitui o lashón hará sem disfarces. Ambos podem “coabitar”, como se depreende da forma proposta pelo Ramban, ou “andar de mãos dadas”, como induz Rashi. Mas ambas as posturas expressam que as campainhas e as romãs estão dispostas num mesmo plano. A romã, ainda que se oculte dentro da campainha, é igualmente “culpada”; o som das campainhas (como afirma o Ramban) é um alerta para ambos os tipos de lashón hará.
“E um cinto farás…” (Êxodo 28:39).
Também o Avnet, o cinto, perdoa os pensamentos do coração; suas trinta e duas amot de comprimento (aproximadamente 18 metros) equivalem numericamente ao termo “Lev”, coração, “ajustando-o” e permitindo seu perdão. É o cinto que separa o coração dos desejos corporais localizados na parte inferior do corpo humano.
“E farás uma lâmina de ouro puro e gravarás nela: ‘SANTIDADE AO ETERNO’…” (Êxodo 28:36).
O uso do Tzitz provoca o perdão, por parte do Todo-Poderoso, das faltas cometidas em relação aos pecados de relações proibidas conhecidas por todos; enquanto os Mijnasáim, as calças de linho, como indica o versículo: “Far-lhes-ás calções de linho…” (Êxodo 28:42), servem para perdoar as relações proibidas não divulgadas.
“E tecerás um turbante de linho fino…” (Êxodo 28:39).
Sua finalidade é absolver o descaramento, tão perigoso, equiparável inclusive às relações proibidas. Essa relação foi expressa pelo Talmud, no tratado Sotá (folio 4b), ao dizer: “Toda pessoa que se comporta com soberba e de forma desavergonhada, no fim, nesse estado, tropeçará com a mulher do seu próximo”.
Por último, a Ketonet, a túnica de linho, como expressa o versículo: “Tu bordarás uma túnica de linho…” (Êxodo 28:39), que absolve a perversão provocada pelo derramamento de sangue.
O Talmud, no tratado Sanhedrin (folio 83b), expressa: “O versículo diz: ‘e serão sacerdotes por estatuto eterno’ (Êxodo 29:9), em todo momento em que estiverem vestidos com suas roupas sacerdotais; caso contrário, não estarão cumprindo seu ofício”; pois, como diz o versículo: “o sacerdote, que se veste esplendidamente…” (Isaías 61:10).
O Meíl, que perdoa o pecado de lashón hará, é a verdadeira “solução”. Hoje, por nossas transgressões, não possuímos o Santuário onde deveria repousar a Presença Divina, o local que permite que todos os pecados sejam perdoados. A presença desse recinto possibilitava apreciar Sua magnificência e, indiretamente, fazia com que os pecados fossem mais difíceis de se concretizar… Quem ousaria desobedecer às ordens Divinas? Percebia-se que o Criador estava ali. Se nossos antepassados tropeçaram em algum erro, é porque o instinto do mal era mais “forte” naquela época. Eles possuíam o Santuário que os “ajudava” a combater o instinto do mal; ali, ao apreciar os milagres que aconteciam em Jerusalém graças ao Santuário, como consta no tratado Pirkei Avot (5:5), e ainda assim… tropeçaram.
O rabino Yechezkel Levinstein expressa sobre essa situação de constante milagre vivida em Jerusalém: “Esses dez milagres eram os ‘conhecidos por todos’, os que se projetavam do interior do recinto sagrado para o exterior; mas uma infinidade de acontecimentos que escapavam ao parâmetro do natural ocorria ali, apenas que tais eventos eram conhecidos pelos Cohanim – os sacerdotes. Com esses dez milagres a pessoa podia reconhecer a existência do Criador e que Ele está acima da natureza”. Hoje, acreditando que “isso não vai acontecer comigo”, pois “sou invulnerável”, sem o Santuário, sem a fragrância da Presença Divina, que possibilidades temos? Como conseguimos nos autoenganar! Como conseguimos nos consolar!
Nossa verdadeira arma é cuidarmos da forma de falar; isso implica purificar nosso “eu”, o ser interno, provocando, a curto ou a longo prazo, uma mudança na pessoa – e essa transformação acabava afetando até seu exterior, pois a fisionomia da pessoa é o reflexo de seus sentimentos. Como expressou o rei Shlomó (Salomão): “O coração do sábio instrui a sua boca e acrescenta saber aos seus lábios” (Provérbios 16:23); e assim chegar à perfeição, como foi dito sobre o rabino Moshé Leib de Sasov: “Ele teve uma grande sorte de a Torá ter proibido falar lashón hará (calúnia), pois se ela tivesse ordenado falar mal do próximo, ainda que fosse verdade, ele nunca teria sido capaz de fazê-lo – e assim transgrediria um mandamento Divino”.
Chegar a ser “um companheiro querido e respeitado”, como expressa o Pirkei Avot (6:6), por suas virtudes, onde predomine o cuidado com nossos modos e expressões, constitui uma tarefa louvável de nossa parte, para que nossas palavras sejam “palavras agradáveis, como um favo de mel, doces para a alma e saudáveis para os ossos” (Provérbios 16:24). E sentirmos, como expressa o profeta: “Com grande alegria me regozijarei no Senhor; a minha alma se alegrará nEle, pois me vestiu com vestes de salvação, cobriu-me com um manto de justiça; como o noivo que se adorna com o turbante sacerdotal, e como a noiva que se enfeita com suas joias” (Isaías 61:10). “Vestuários e joias de santidade”; “Vestuários e joias de pureza”.
(Gentileza de www.Torá.org.ar)