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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

As bases de um relacionamento perfeito – Vaera

Muitos judeus se perguntam o que é o judaísmo: um povo, uma religião ou apenas costumes ocasionais? O dicionário o define como uma religião monoteísta dos antigos hebreus, e, tragicamente, muitos aceitam essa definição como se refletisse toda a sua tradição.

Ao analisá-la, porém, fica claro que essa definição quase contradiz o judaísmo — seria como descrever uma maçã como uma fruta alaranjada. Na infância, eu tinha dificuldade em definir o que era o judaísmo; embora tivesse estudado em escolas judaicas, como muitos outros, nunca aprendi a refletir criticamente sobre minha identidade. Em alguns momentos, o judaísmo se reduzia, para mim, a rituais básicos. Se me perguntassem o que significava ser judeu, eu respondia com uma definição superficial, sem imaginar que a visão da Torá é tão profunda e transformadora que supera até mesmo os dicionários.

A parashá desta semana resume nossa tradição: antes de enviar Moshé para libertar Israel, HaShem lhe promete tirar o povo do Egito e levá-lo à terra que jurou a Abraão, Isaque e Jacó (Êxodo 6:2–8). Muitas pessoas acreditam que religião é sinônimo de fé cega. Mas, no judaísmo, não existe fé cega. A palavra hebraica emuná, frequentemente traduzida como “fé”, significa reconhecer que algo é verdadeiro e agir de acordo com essa verdade. Por exemplo, a maioria das pessoas “acredita” que a melhor maneira de perder peso é com alimentação saudável e exercício, pois isso já foi comprovado inúmeras vezes. Essa crença, no entanto, não é fé; é aceitar um fato. A emuná vai um passo além: quem realmente possui emuná nisso efetivamente muda sua alimentação e pratica exercícios.

Um contrato de casamento

O versículo citado assemelha-se mais a um contrato de casamento (ketubá) do que a um dogma religioso. Num casamento judaico, o noivo compromete-se a honrar, cuidar, sustentar e respeitar sua esposa com fidelidade. Nesse versículo, D'us — como “o noivo” — promete cuidar e sustentar o povo judeu, redimindo-o do Egito e conduzindo-o à Terra de Israel. Em troca do Seu amor e fidelidade, nós nos tornamos Seu povo.

Com isso, podemos começar a definir o que é o judaísmo. Não é um conjunto de regras empoeiradas que nos impedem de aproveitar o dia 25 de dezembro. É, e sempre foi, um relacionamento profundo — quase um matrimônio — entre o Criador e Seu povo.

O Rabino Shimshon Raphael Hirsch explica que o judaísmo é muito mais amplo do que a ideia secular de “religião”. Em outras religiões, D'us tem templos, sacerdotes e congregações, e as pessoas têm relações com reis, presidentes ou líderes. Mas, no judaísmo, D'us não fundou uma Igreja, mas sim uma Nação, e toda uma vida nacional deveria ser organizada em torno d’Ele. Nossa relação com D'us deve impregnar cada aspecto da vida, não apenas a oração de sexta-feira à noite.

Amar é dar

Como construímos esse relacionamento? O amor é um componente essencial de qualquer vínculo bem-sucedido. O Rabino Akiva Tatz explica que a palavra hebraica para amor, ahavá, é formada pelas letras alef, hei e vav. A raiz hei–vav significa “dar”, e a alef modifica esse significado. Assim, amor significa essencialmente “eu dou”. O amor não é apenas paixão romântica, mas entrega. Quanto mais damos, mais o amor cresce. Por isso os pais amam tão profundamente seus filhos: porque esse amor nasce da doação constante.

Quando compreendemos o judaísmo como um relacionamento, abrem-se possibilidades infinitas de crescimento, alegria e plenitude. Assim como um relacionamento profundo gera felicidade, quando o povo judeu investe em sua relação com D'us descobre um vínculo que traz um enorme senso de propósito. No entanto, muitos estão tão distantes dessa experiência que nem sequer conseguem imaginar o que estão perdendo.

Muitos jovens hoje sentem-se exaustos com o mundo dos encontros amorosos: cansados da superficialidade, buscam algo mais autêntico. O mesmo ocorre com a espiritualidade: muitos sentem-se fartos de uma vivência vazia do judaísmo. Talvez o problema não seja o judaísmo em si, mas o contexto em que o conheceram.

Criar um relacionamento verdadeiro

Assim como você não procuraria sua futura esposa num bar barulhento, também não é razoável esperar encontrar profundidade espiritual num ambiente desconectado. Para redescobrir o judaísmo, precisamos repensar nossas ideias e ver essa tradição como um relacionamento vivo, capaz de nos proporcionar uma alegria profunda e duradoura.

Todos, no fundo, buscamos o relacionamento perfeito. Como judeus, temos acesso a esse relacionamento em cada momento do dia. Ao aprendermos a valorizar nossa herança e trabalharmos para nos tornarmos pessoas mais sensíveis, íntegras e generosas, podemos nos aproximar do Criador e viver uma vida mais plena. Esse é, segundo a perspectiva da Torá, o propósito da vida — e o estudo judaico nos oferece as ferramentas para construir esse relacionamento perfeito.

A redação Breslev Israel

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